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Mensagens

Lou Reed - Velvet Underground - Walk on the wild side - 80's

Alguns dos Filmes da Minha Vida nº 7 - Unbreakable de M.Night Shyamalan

Um dos filmes da minha vida! Character study realista e mitológico - o ponto alto da matriz do seu realizador. Permanece, desde o seu visionamento no cinema, uma dúvida no meu espírito, que me perturba quando ainda hoje o revejo. Talvez esteja aí um dos motivos mais profundos do meu fascínio O protagonista do filme é obviamente o pai e é o seu percurso de descoberta identitária o foco central do filme. Mas assombram-me as consequências identitárias que a descoberta do estatuto de herói projecta no filho, tema naturalmente não explorado no filme.  Ao natural, e próprio da infância, endeusamento do pai a criança, na sua busca de um espaço vital, vai no processo de formação da sua personalidade tentar deseroicizar e desmistificar a figura paterna para encontrar e construir a sua identidade. Esse processo é neste caso subvertido pela “realidade” do pai-herói. O futuro identitário do rapaz é das questões ocultas que mais me inquieta quando revisito Unbreakable . Como vai a cria...

Notas Soltas e Esporádicas 1 - A continuidade intensificada ou ADD

Dos primórdios até aos dias de hoje assistimos a um aumento prodigioso do número de planos por filme numa perspectiva cada vez mais feroz e sofisticada de “chocar” e surpreender as plateias com novas e poderosas estratégias de ênfase narrativo. O teórico David Bordwell chamou-lhe continuidade intensificada.  Quatro técnicas em particular foram, para ele, centrais neste paradigma estilístico: 1)  Montagem crescentemente rápida: entre 1930 e 1960 cada filme de Hollywood continha um nº médio de planos entre os 300 e os 600. O que dava uma duração média por plano entre os 8 e os 11 segundos. Em 2000 um filme como Almost Famous tinha já 3,8 segundos por plano, a título de exemplo. 2)  Extremar das distâncias focais escolhidas: a continuidade tem crescentemente sido intensificada também pelo uso polarizado de objectivas e respectivas distâncias focais para ênfase visual permanente da ação. Um dos marcos nessa evolução foi, por exemplo, o filme de Arthur Penn “Bon...

Arcade Fire e o Cinema

A minha banda preferida está de regresso com o single que dá nome ao álbum:  Reflektor. Para mim é de uma solidão histórica que me parece falar a música. Um músico cria hoje em dia com uma aguda auto-consciência histórica que a melomania à distância de um clique permite.   Todos querem validar o seu papel e singularidade nessa continuidade histórica que tão bem conhecem e amam. Por isso fazem-no cada vez mais num clima de vertigem da novidade. Exaltamos esfomeadamente qualquer prenúncio de autenticidade. Procuramos constantemente um messias, um game changer . Alguém que habite com voz própria o presente vislumbrando-o de fora, pairando sobre a história e o passado - um mundo espectral de reflexos e fragmentos. Em Reflektor a brevíssima participação David Bowie é a assunção irónica de um pai artístico, da influência maior da banda. Um arquétipo a que a letra empresta o papel de falso redentor. Ele é a presença da avant garde que com o tempo se canonizou e que...

"A Gaiola Dourada" e a Celebração do Cliché

Há, no filme “A Gaiola Dourada” um geunino carinho de Ruben Alves pelo estereotipo. Ele próprio faz da sua aparição no filme uma afirmação de caricaturalidade. É próprio de alguém bastante inteligente (e/ou esperto) que não quis de todo alienar públicos-alvo e, muito menos, produzir qualquer desconforto na sua comunidade de origem.  Mas também alguém que tentou consciente e integramente ordenar e pôr em jogo uma constelação de ideias e imaginários com que sempre conviveu. Lembrei-me de uma citação de Umberto Eco em torno de Casablanca (salvaguardando as devidas diferências de peso entre os filmes): " Casablanca não é apenas um filme. É muitos filmes, uma antologia [...] Dois clichés fazem-nos rir. Cem clichés tocam-nos. Porque sentimos que eles estão, de alguma forma, a falar entre eles e a celebrar uma reunião" . "A Gaiola Dourada" é uma sublimação da vida que dispensa profundas escavações sociológicas para fixar e ao mesmo tempo relativizar, de um...

Alguns dos Filmes da Minha Vida nº 7 - O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, de Andrew Dominik

Decidi rever “O Assassinato de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”. Este filme tem finas e obscuras camadas de psicologia. Tem uma deliciosa componente literária sublinhada por uma voice over omnisciente, quente mas “académica”. Tem uma maravilhosa consistência de tom. É de hipnose que se tece a palete de castanhos e preto, a banda musical de “sonho” e uma lógica de contemplação que respeita o tempo do drama. Por paradoxal que pareça alguns críticos (sobretudo americanos) queixam-se do contrário usando a mesma grafia que eu: “it lacks tempo!”, dizem sonolentos. É a alvorada da cultura de celebridade que vemos no filme. E as respectivas reflexões e refrações que tão actuais permanecem. O mito de Jesse James foi ao longo dos tempos revisto e deseroicizado. Vários historiadores o colocaram no contexto do estertor confederado e guerrilheiro pós-guerra civil americana. E no entanto há qualquer coisa de ironicamente elegíaca que este filme preserva que não deixo de ver ...

O Referente de Cavaleria Rusticana - de Scorsese a Coppola

Cavaleria Rusticana é uma peça musical de Pietro Mascagni, estreada em 1890 no Teatro Constanzi em Roma, e baseada num peça escrita por Giovanni Verga. Foi a ópera que disseminou o mito do cavalheirismo rústico dos sicilianos. Uma história de ciume e vingança passada entre os camponeses da Sicília.  Fala de honra, duelos, vendettas.  Foi porventura das primeiras referências culturais ao tal espírito siciliano que mais tarde vieram simplistica e de forma generalista a associar à máfia. A palavra "mafia" deriva do adjectivo siciliano mafiusu, como raízes no árabe mahyas, que significa "alarde agressivo, jactância" ou marfud, que significa "refeitado". Traduzido livremente significa bravo. Desde a sua composição e exibição que vários autores, sobretudo sociólogos, trataram de desconstruir os  pejorativos lugares comuns de cavalheirismo rústico que a ópera corporizou. Mas será sempre uma peça musical que arrasta consigo um referente muito forte que ne...

Entrevista à Le Cool sobre a estreia de "Estórias"

É já dia 1 de Abril às 21:30 (São Jorge 1) que estreia o meu novo filme: Estórias http://www.facebook.com/estoriasofilme Falei sobre ele e vários outros assuntos com Rafa, da Le Cool. a primeira vez que falámos, o cinema preenchia uma parte importante da tua vida, mas surgia acessório. Neste momento, uns quantos anos passados por tabela, já se te assume a função de realizador.  Conta-me lá este teu percurso cinemático.  Para alguns, à arte deve estar anexa uma pureza desinteressada, uma espécie de glorificada diletância precária. Eu acredito profundamente no artista profissional e tenho investido séria e disciplinadamente em aprofundar a minha relação com o cinema para que dele possa um dia viver. Poderei morre a tentar mas morrerei feliz.  Depois de " N atália - a Diva Tragicómica", surges com um segundo filme, o "Estórias", onde acompanhas quatro pessoas - não personagens, talvez - relacionadas a Lisboa de uma forma bastante diversa. Que "Estórias...

Música Narrativa nº 7 - "Última Hora" de Spike Lee, OST de Terence Blanchard

Foi das mais referências culturais ao 11 de Setembro feitas mais a quente, esta obra-prima que anexou a perda do seu protagonista, um traficante de droga no seu último dia de liberdade, ao desnorte da nação americana. Não é dispicienda esta referência. Estavam os EUA aturdidos e a ferida acabadinha de abrir. Palpita-me que esse ímpeto Spikeano (o mesmo que o levou a documentar New Orleans pouco tempo depois do Katrhina) e a ausência de distanciamento histórico são, curiosamente, os seus ingredientes mágicos. Assim, Spike Lee assume desde o início do filme a sua sobrecarga emocional. O filme segue num registo transbordante e trágico que se entranha e não mais larga nem o deixa respirar e em que esta peça de Terence Blanchard é central. Está em loop por todo o filme e disfarçado inclusive na sua diegese e ,com ela, paira um destino traçado e a profundidade das mágoas e culpas de Monty (Edward Norton) aqui está o seu pico dramático: The Last Walk É das coisas mais tristes e ten...

Notas Soltas - "E a Vida Continua" de Abbas Kiarostami

E a Vida Continua - Abbas Kiarostami, 1992 Por diversas ocasiões neste filme balançamos entre as subjectividades, do filho e do pai, e planos muito gerais que apequenam. Vejo neste dispositivo o elemento de humanidade documental que torna os seus filmes tão únicos. Entre a composição e a realidade está o seu território emocional. Várias vezes me lembrei, a este propósito, de Close-Up, um dos meus filmes preferidos. No plano final (também ele muito geral) está um exemplo genial de um minimalismo que maximaliza. Um pequeno nada que muito diz. Sensibilidade e talento de mão bem apertada!

Cenas da Minha Vida nº 6 - Cena Final de Chinatown

De Chinatown diz-se ser o melhor dos guiões (canónicos) de todos os tempos. Desde o estabelecimento do tom e ambiência - uma LA minuciosamente seca e desolada - à exposição e gestão da informação - milimétrica  - passando pela composição das personagens e progressão da acção - todas as cenas concorrem para ambas o que, de acordo com a fórmula, é o que se quer. Mas apesar do genial argumento de Robert Towne é o próprio Roman Polanski que fugindo às pretensões de happy ending do produtor escreveu esta cena final que marca, com o seu quintessencial cinismo, o filme e verdadeiramente o catapulta para a eternidade. Depois de uma longa investigação percebemos que Chinatown é, no final, um estado de espírito, um lugar obscuro, macabro, e ininteligível da alma humana que nem um investigador policial consegue realmente prescrutar. É, curiosamente, um elemento de ambiguidade que estabelece a intemporalidade do filme e que, paradoxalmente, dá asas e dimensão à perfeição de relojoeiro do...

Novo Filme! Documentário com o Senhor do Adeus - "Estórias"

Apresento-vos o meu novo filme: Estórias É um documentário onde João Serra - o Senhor do Adeus - é motivo central. Até que as datas de exibição pública estejam fixadas deixo-vos o trailer:

Da Pseudo-Intelectualidade Cinematográfica

É por vezes irritante que tudo o que não se compreenda seja classificado defensivamente de pseudo-intelectual. Negar a vastidão e complexidade da arte do cinema é próprio de quem na realidade nunca quis (com toda a legitimidade) aprofundar a sua relação com ele. É, por exemplo, por ser um médium de imagens de familiaridade directa que muitos rejeitam linguagens alternativas ou têm tolerância limitada a ambiguidades. É uma espécie de uma espécie de deformação realista do cinema que leva a que muitos classifiquem de “armado ao pingarelho” tudo o que suscite abstração e reflexão. Algo muito próprio da lógica simples e imediata da era de hegemonia televisiva em que vivemos. Mas isto não significa que a pseudo-intelectualidade não exista. Mas é um conceito subjectivo. Ela existe quando, por exemplo, um filme se tece inteiramente de citações e intertextualidades que excluem da sua leitura a esmagadora maioria dos espectadores e o faz sem um critério pessoal coerente....

Notas Soltas nº 2

Les Adieux à La Reine (2012) , Benoît Jacquot– Fiquei com a sensação de nunca ter mergulhado no filme e sua atmosfera. Poderia ser o meu preconceito em relação a dramas históricos a falar mas não é claramente só isso. A escolha da “Maria Antonieta”, por exemplo, foi claramente um tiro ao lado e a subjectividade da leitora da rainha é marcada sem qualquer tipo de subtileza pela câmera e com uma inflação insuportável de premonições sobre o seu trágico destino.   Monterey Pop Festival (1968) , D.A. Pennebaker– Nunca vi rocumentário com tão arrepiantes actuações. Otis Redding é em particular potente. Dois anos antes de auge hippie de Woodstock e três anos antes do seu estertor em “Gimme Shelter” era esta o percursor do casamento do cinema directo com contracultura dos anos 60. Ainda ingénuo e bonito por isso.   Shermans March (1986) , Ross MacElwee– Muitas vezes o documentário pessoal resvala para o narcisismo inconsequente. Neste filme esse risco era acresci...

Cenas da Minha Vida nº 5 - Final do "The Conversation", de Francis Ford Coppola

Os amigos mais próximos enfadam-se quando trago à baila este filme. São centenas as ocasiões que o cito.  Gene Hackman como nunca mais o vimos. Longe da sua persona de aço e invulnerabilidade. É espectacular a consistência dos sinais que, por exemplo, a sua expressão corporal tolhida nos transmite. É um homem bloqueado. A história de um vigilante que se torna o vigiado. A cena leva-nos ao auge da sua paranóia. Até o seu eterno refúgio, o saxofone, lhe nega qualquer chance de paz. São 7 minutos de decomposição: do espaço físico e do espaço mental em que habita. Tudo filmado com uma precisão milimétrica e embalado por uma poderosa hipnose musical. É genial o piscar de olho à câmara de vigilância que é o seu plano final - em pleno rescaldo do Watergate. Que guardemos do gordinho, hoje um vitivinicultor a tempo inteiro e realizador nas horas vagas, o que de melhor ele fez. E este é simplesmente um dos melhores filmes da história do cinema.

Alguns dos filmes da minha vida nº 6 - Adaptation de Spike Jonze

No filme “Adaptation” de Spike Jonze o protagonista guionista tenta adaptar para cinema uma obra altamente livre e descritiva (literária) sobre orquídeas. Acaba, contudo, por bloquear na sua labiríntica neurose. No auge da sua confusão, é o próprio Charlie Kaufman, o real guionista do filme, que se mete a si próprio no enredo. É na evocação da orquídea e da sua desarmante e primária beleza que está a verdadeira dimensão do que está verdadeiramente em jogo: de que Charlie no meio da sua desorientação está fascinado com algo natural e primário que transcende a sua existência torturada. Numa determinada cena Charlie Kaufman, a conselho do seu pragmático e descomplexado irmão gémeo, recorre finalmente ao guru formulaico do guionismo Robert Mckee tentando encontrar respostas concretas para a sua demanda. Para ele a vida, torturada como ele a sente, não cabe nas estruturas de um drama e que nela tudo, ao contrário do drama, perman...

Cenas da Minha Vida nº 4 - Cena final de "The Unforgiven", de Clint Eastwood

É um final de cortar à faca! Clint olhava para todo o seu historial de leviana representação de violência e desconstruia qualquer noção de moralidade com um dos mais marcantes anti-heróis da história do cinema. Não é qualquer setentão que consegue ter a frescura de se re-equacionar desta forma! Nesta cena é a força do mito que "desvia" as balas e tolhe a reacção dos pistoleiros. É o mundo místico do Far-West que é posto em jogo e que abriu caminho ao revisionismo do género que nos deu muitos outros filmes de qualidade desigual (destacava o grande "Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford"). Este filme lançou-me numa admiração quase idólatra do realizador que só viria a terminar em anos recentes quando o filão temático da auto-crítica se esgotou irreversivelmente. Uma das cenas e um dos filmes da minha vida.

Notas Soltas

Passarei a compilar nesta página pequenas mas (espero) significativas notas sobre os filmes que vou vendo. Janeiro de 2012 Martha Marcy May Marlene (Sean Durkin, 2011) Excelente a forma como os flashbacks se diluem e presentificam com raccords simples e bonitos. É super bem sucedida a intenção de criar um todo orgânico tecido no passado e no presente. Evita a tentação virtuosa (artificiosa) das convenções do indie. A frieza analítica combina-se na perfeição com um outro tom mais quente e melodramático. Fotografia coerente e rigorosa, sem exageros. Uma Separação (Asghar Farhadi, 2011) Os ciclos de atenção de um filme no cinema decrescem ano após ano. É a era dos teasers, da câmara nervosa e da pós-produção vibrante. Este ritmo publicitário que luta sem tréguas para captar a atenção do espectador choca-me. Mas enquanto existirem filmes como este, está tudo bem:). É a sua coerência, humanidade e integridade que nos conquista e fazem deste um grande filme! Não há truques que substituam ess...

As Barricadas do Cinema em Portugal

"Num Mundo Melhor", da dinamarquesa Susanne Bier No cinema portuguÊs criaram-se barricadas. O texto publicado no Y esta semana, sobre a política de cinema na Dinamarca, poderia ajudar a descompartimentar opiniões. http://ipsilon.publico.pt/cinema/texto.aspx?id=298997 Deixo a minha opinião, relativizando as tais duas barricadas: 1)Cinema sem financiamento público (chamem-lhe subsídios ou o que quiserem) seria uma catástrofe cultural. Não é apenas por conformismo que se subsidia o cinema. É por ser uma actividade de investimento intensivo e cuja escala do nosso mercado torna potencialmente deficitária. Apelar ao amor à arte e amadorismo diletante da malta do cinema não é solução! É uma actividade muito complexa e cujas qualidades são apuradas durante um longo percurso que tem que ser profissional para ser consequente. Ter apenas cinema dito comercial não é também suportável porque anularia seguramente a pluralidade criativa ...

O que tem o The Godfather de tão intemporal?!

A saga cinematográfica “O Padrinho” (falo apenas das Partes I e II) possui uma qualidade indizível. Tem propriedades que lhe conferem uma intemporalidade invulgar na história do cinema. É para mim, pessoalmente, um filme de fascínio que consigo reviver a cada visionamento caseiro. Perceber este apelo perdurante é algo que sempre tentei fazer, mas de forma intuitiva e desorganizada. Vou tentar pôr alguma ordem nesses misteriosos estímulos enumerando alguns deles : identificação/repulsa Somos tão fortemente atraídos para o mundo das personagens que mal reparamos que nós/eles passaram determinada fronteira de comportamento socialmente aceitável. Estamos sempre perante a ambivalência de ver acções que parecem justificadas pelo contexto social em que acontecem mas que, de alguma forma, sancionamos moralmente, com maior ou menor grau de consciencialização. Ambos os filmes permitem às plateias participarem em acções proibidas e tirar daí fruição mas sempre na instável e perturbante fronteira ...