quarta-feira, 23 de julho de 2014

Alguns dos Filmes da Minha Vida nº 7 - Unbreakable de M.Night Shyamalan



Um dos filmes da minha vida! Character study realista e mitológico - o ponto alto da matriz do seu realizador.

Permanece, desde o seu visionamento no cinema, uma dúvida no meu espírito, que me perturba quando ainda hoje o revejo. Talvez esteja aí um dos motivos mais profundos do meu fascínio


O protagonista do filme é obviamente o pai e é o seu percurso de descoberta identitária o foco central do filme. Mas assombram-me as consequências identitárias que a descoberta do estatuto de herói projecta no filho, tema naturalmente não explorado no filme. 

Ao natural, e próprio da infância, endeusamento do pai a criança, na sua busca de um espaço vital, vai no processo de formação da sua personalidade tentar deseroicizar e desmistificar a figura paterna para encontrar e construir a sua identidade. Esse processo é neste caso subvertido pela “realidade” do pai-herói. O futuro identitário do rapaz é das questões ocultas que mais me inquieta quando revisito Unbreakable. Como vai a criança tornar-se adulta sabendo da omnipotência do seu pai, sabendo que é um herói.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Arcade Fire e o Cinema


A minha banda preferida está de regresso com o single que dá nome ao álbum:  Reflektor.


Para mim é de uma solidão histórica que me parece falar a música.

Um músico cria hoje em dia com uma aguda auto-consciência histórica que a melomania à distância de um clique permite.  

Todos querem validar o seu papel e singularidade nessa continuidade histórica que tão bem conhecem e amam. Por isso fazem-no cada vez mais num clima de vertigem da novidade. Exaltamos esfomeadamente qualquer prenúncio de autenticidade. Procuramos constantemente um messias, um game changer. Alguém que habite com voz própria o presente vislumbrando-o de fora, pairando sobre a história e o passado - um mundo espectral de reflexos e fragmentos.

Em Reflektor a brevíssima participação David Bowie é a assunção irónica de um pai artístico, da influência maior da banda. Um arquétipo a que a letra empresta o papel de falso redentor. Ele é a presença da avant garde que com o tempo se canonizou e que desde então reflecte a sua influência global com um peso tutelar. Não há como fugir-lhe e de alguma forma não o reflectir. É da impossibilidade da linguagem artística individual e a angústia do criador que a canção me parece falar.  


Esta glorificação do indie e uma auto-consciência  que seca é território por excelência do cinema actual . É toda uma cinefilia instantânea e democratizada que olhando com vénia o cânone o tenta desesperadamente e paradoxalmente superar. Procura-se o iluminado que citando ou desconstruindo a história do cinema consiga superar academismos, atavismos, dominâncias, figuras tutelares. Proliferam propostas de autenticidade e independência espiritual por esse mundo fora, por esses festivais adentro...

Mas será a individuação, na música como no cinema, uma tarefa inglória?

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

"A Gaiola Dourada" e a Celebração do Cliché



Há, no filme “A Gaiola Dourada” um geunino carinho de Ruben Alves pelo estereotipo. Ele próprio faz da sua aparição no filme uma afirmação de caricaturalidade. É próprio de alguém bastante inteligente (e/ou esperto) que não quis de todo alienar públicos-alvo e, muito menos, produzir qualquer desconforto na sua comunidade de origem.  Mas também alguém que tentou consciente e integramente ordenar e pôr em jogo uma constelação de ideias e imaginários com que sempre conviveu.

Lembrei-me de uma citação de Umberto Eco em torno de Casablanca (salvaguardando as devidas diferências de peso entre os filmes): "Casablanca não é apenas um filme. É muitos filmes, uma antologia [...] Dois clichés fazem-nos rir. Cem clichés tocam-nos. Porque sentimos que eles estão, de alguma forma, a falar entre eles e a celebrar uma reunião".

"A Gaiola Dourada" é uma sublimação da vida que dispensa profundas escavações sociológicas para fixar e ao mesmo tempo relativizar, de uma vez por todas, o papel dos imigrantes portugueses no imaginário dos franceses e dos portugueses que cá ficaram. “Dois clichés fazem-nos rir, cem clichés tocam-nos”.

É no imaginário colectivo que o filme se aloja sem pretensão de ruturas: a ética de trabalho como elemento de orgulho identitário do emigrante português; clássicos como a folclórica ostentação das férias no “Verão Português”; o futebolocentrismo; para além das referências culturais óbvias como o fado, o bacalhau... É também nas convenções do melodrama e da comédia ligeira de costumes que o filme se faz. Não é nem quer ser um grande filme mas tem a sobriedade de o saber.

É no senso comum que os portugueses se representam e se vêm a si próprios, que os preconceitos e complexos se sedimentam. Ruben Alves reconhece-os e ridiculariza-os dessacralizando-os e esvaziando-os da seriedade e do peso próprio das piadas (que franceses e portugueses, de resto, partilham). As piadas estão no ecrã, há que rir. Um comic relief feito de agruras e conquistas. Catártico e pós-sociológico.


É o tipo de honestidade descomplexada (e tecnicamente perfeita, já agora) que o nosso cinema ainda está longe de alcançar e que, por exemplo, a nossa crítica se apressa normalmente a desvalorizar. 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Alguns dos Filmes da Minha Vida nº 7 - O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, de Andrew Dominik



Decidi rever “O Assassinato de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”.

Este filme tem finas e obscuras camadas de psicologia.
Tem uma deliciosa componente literária sublinhada por uma voice over omnisciente, quente mas “académica”.
Tem uma maravilhosa consistência de tom. É de hipnose que se tece a palete de castanhos e preto, a banda musical de “sonho” e uma lógica de contemplação que respeita o tempo do drama. Por paradoxal que pareça alguns críticos (sobretudo americanos) queixam-se do contrário usando a mesma grafia que eu: “it lacks tempo!”, dizem sonolentos.


É a alvorada da cultura de celebridade que vemos no filme. E as respectivas reflexões e refrações que tão actuais permanecem. O mito de Jesse James foi ao longo dos tempos revisto e deseroicizado. Vários historiadores o colocaram no contexto do estertor confederado e guerrilheiro pós-guerra civil americana. E no entanto há qualquer coisa de ironicamente elegíaca que este filme preserva que não deixo de ver como comentário precisamente à mirabolância da fábrica mediática americana. Um dose mágica de nostalgia e cepticismo fazem deste um dos meus filmes preferidos de todos os tempos.

sábado, 6 de abril de 2013

O Referente de Cavaleria Rusticana - de Scorsese a Coppola




Cavaleria Rusticana é uma peça musical de Pietro Mascagni, estreada em 1890 no Teatro Constanzi em Roma, e baseada num peça escrita por Giovanni Verga. Foi a ópera que disseminou o mito do cavalheirismo rústico dos sicilianos. Uma história de ciume e vingança passada entre os camponeses da Sicília. Fala de honra, duelos, vendettas. Foi porventura das primeiras referências culturais ao tal espírito siciliano que mais tarde vieram simplistica e de forma generalista a associar à máfia. A palavra "mafia" deriva do adjectivo siciliano mafiusu, como raízes no árabe mahyas, que significa "alarde agressivo, jactância" ou marfud, que significa "refeitado". Traduzido livremente significa bravo.

Desde a sua composição e exibição que vários autores, sobretudo sociólogos, trataram de desconstruir os  pejorativos lugares comuns de cavalheirismo rústico que a ópera corporizou. Mas será sempre uma peça musical que arrasta consigo um referente muito forte que nem o tempo nem o estudo trataram de eliminar.

É com esse referente de orgulho macho que Scorsese lança o italo-americano Jake la Motta na sequência de título de Touro enraivecido e é com a expressividade de um slowmotion enevoado que o filme arranca num tom mitológico.


É também da mesma forma e com uma ligação antropológica muito mais directa que Coppola encerra a triologia no Padrinho III após uma cena climática em que a própria ópera é representada no Teatro Massimo de Palermo. 


Instrumentalizando coerentemente esta ópera, ambos os filmes assumem-se num terreno mágico entre o levantamento realista e historiográfico dos universos que visitam e um olhar que se assume como produto derivado, de segunda geração, mitológico, maravilhado e barroco. 

sábado, 30 de março de 2013

Entrevista à Le Cool sobre a estreia de "Estórias"

É já dia 1 de Abril às 21:30 (São Jorge 1) que estreia o meu novo filme: Estórias

http://www.facebook.com/estoriasofilme



Falei sobre ele e vários outros assuntos com Rafa, da Le Cool.

a primeira vez que falámos, o cinema preenchia uma parte importante da tua vida, mas surgia acessório. Neste momento, uns quantos anos passados por tabela, já se te assume a função de realizador. 

Conta-me lá este teu percurso cinemático. 

Para alguns, à arte deve estar anexa uma pureza desinteressada, uma espécie de glorificada diletância precária. Eu acredito profundamente no artista profissional e tenho investido séria e disciplinadamente em aprofundar a minha relação com o cinema para que dele possa um dia viver. Poderei morre a tentar mas morrerei feliz. 

Depois de "Natália - a Diva Tragicómica", surges com um segundo filme, o "Estórias", onde acompanhas quatro pessoas - não personagens, talvez - relacionadas a Lisboa de uma forma bastante diversa. Que "Estórias" te interessou acompanhar ou contar aqui? Não é também o João Serra, o mítico Senhor do Adeus e uma das pessoas que documentas no filme, ele póprio um elemento um pouco trágico, algo cómico, de Lisboa? E os restantes, são estoriáveis alfacinhas?

No meu primeiro filme, “Natália a Diva Tragicómica” (Real Ficção, RTP2, 2011 -http://nataliaadivatragicomica.blogspot.pt/), tracei um percurso de pinceladas biográficas em torno da diva iludida do canto lírico Natália de Andrade que, acreditando ter dotes vocais fantásticos, era (e é ainda hoje no youtube e outros canais) motivo de escárnio para os que a rodeavam. Há portanto uma afinidade clara entre os dois filmes. Ambos partem de e tentam transcender uma ideia simplificada ou simplista de uma figura que pela sua excentricidade se tornou um facto mediático com ecos póstumos. Ambos já falecidos (Natália em 1989 e João Serra em 2010) mas bem presentes num imaginário urbano lisboeta e português. 

Ambas histórias de Lisboa mas ambas universais nos temas que evocam. Mas distingui-los-ia da seguinte forma: com Natália tentei encontrar alguma realidade na ficção permamente que foi a sua vida, com o Senhor do Adeus tento encontrar o que de “ficcional” existe na vida de todos nós. Na medida em que criamos estórias e narrativas pessoais simplificadas para nos apresentarmos aos outros e ao mundo que, pela nossa complexidade intrínseca, nunca nos poderão realmente definir.

Como foi a tua convivência com o João Serra para o filme? Era uma personagem adorável, postal essencial do Saldanha (e Praça de Espanha e os demais sítios onde acenava). Tinha sobretudo uma desarmante honestidade e uma pueril ingenuidade. Era autêntico - quiseste transportar isto para o filme?

Este filme é, para mim, uma iniciativa de puro fascínio. Por algum motivo insondável o caso prendeu-me a atenção. Começa sempre assim, por um apelo insondável. Para clarificar a minha visão propus-me, desde então, a fazer a anatomia desse apelo. Porque me falou tanto a história deste homem e, sobretudo, das histórias que dele se contaram? Quando das homenagens póstumas ouvi falar, tive como primeira e imediata reacção o desdém próprio de alguém que nega (ou precisa de negar) qualquer manifestação de humanidade desinteressada. Uma camada de cinismo muito primária e pouco produtiva. 

Mas talvez do calor das míticas histórias de convívio e comunidade rural dos meus pais e da simplicidade de conversas à volta da fogueira tenha ficado também esta idealização mágica que tornava o senhor altamente inspirador. Havia nesse percurso de auto-descoberta que re-equacionar o mito. Ver o Senhor do Adeus a uma nova luz rejeitando dois extremos da retórica dominante.

- Ele não representa, para mim, uma arqueologia do calor humano perdido que a mitologia póstuma lhe atribuiu. Esse é o tipo de simplificação racional que o mito cristaliza para saciar a nossa premente necessidade de “arrumação intelectual”.

- Mas é igualmente redutor vê-lo como o típico “cromo de Lisboa”, um excêntrico com traumas irresolvidos.

Percebi desde cedo que ele é, para mim, uma versão exacerbada de uma muito comum e contemporânea urgência emocional, nunca resumível em nenhuma das duas proposições anteriores. Algo para o qual os contactos fugazes com os transeuntes constituia um fortíssimo elemento paliativo. O que de maravilhoso tem o seu caso é a transparência com que assumia o que muitos de nós escondemos. Nesse sentido o seu exemplo foi de facto poético e invulgarmente inspirador.

O que te fascina no documentário como processo e como máquina de ver o mundo - és um homem com uma máquina de filmar que pretende fixar, dando aquele enquadramento e edição só teus, histórias de vida que te atraem? Confirmas sermos nós, portugueses - vocês, realizadores portugueses - fortes e objetivos no documentário e na etnoficção?

Sem romantizar a magia do processo criativo, é na minha relação profunda com um tema que tudo começa. É o tempo e a reflexão que trazem luz a esse apelo inicial. É aí reside o mapa intrínseco do filme, a sua fonte de coerência.

É um universo desigual. Vejo, para meu desagrado, mais pretensões etnográficas do que etnoficcionais no cinema documental português. Um certo tom de realismo antropológico datado e inconsequente. E depois há filmes como "É na Terra, não é na Lua" e "Linha Vermelha" que são orgulhosamente de outro campeonato: maduros e pensantes... exceções.

E, já que estamos de estreias, lança um convite para que te assistam ao filme no São Jorge. Sem receios de umbiguismo, vem.


Há na televisão uma espécie de esperanto do audiovisual, uma pensamento dominante e global que seca e simplifica o que é complexo. É voraz esta tendência acrítica e a interrogação produtiva perde espaço de dia para dia. O que o "Estórias" faz é convocar o espetador, de cinema e televisão, problematizando. Estão pois convocados!

Cortei deliberadamente qualquer questão relacionada com financiamentos/perspetivas e eteceteras sobre o estado do cinema em Portugal. A mim parece-me que a criatividade encontra caminhos que o momento nem desconfia. Naturalmente que um filme tem custos associados (e necessidades de público e distribuições) que suplantam muito do restante que se vai fazendo na arte. 

O que se pode esperar então de João Gomes? Ficção ou um caminho ainda mais vincado de "recoletor" de lisboetas?

O filme fala precisamente de uma malha ficcional de que se tece o nosso quotidiano. Nós apresentamo-nos e representamo-nos ao mundo. Assim se o documentário foi uma porta de entrada e uma forma de ganhar traquejo, é hoje para mim um terreno inesgotável de criatividade. Pululam a minha mente inúmeras ideias para ficções e documentários. É mais que conhecida e batida a diluição pós-moderna da fronteira entre os dois, mas nem por isso menos pertinente e produtiva.

Lisboa. E pegando no caso do Cinema Londres, que até foi o nosso último verdadeiro cinema de bairro e desapareceu agora. Não devemos ficar em luto, mas lamenta-se. O período de nojo já vinha desde há décadas, com o então advento do vídeo, mas a estocada final foi mesmo com nets e cineplexes. Que achas destas mudanças assim? Onde podemos agora assistir cinema em tela? 

É uma questão vasta. Li recentemente um livro interessantíssimo de Margarida Acciaiuoli "Os Cinemas de Lisboa". Fala-se nele das sociabilidades comunitárias perdidas. Mas antes do advento da introspeção reflexiva, é descrita a cinefilia como um circo de mimetismos sociais com "aplausos e pateadas" durante as sessões. E são frequentes os períodos históricos de escapismo febril que muitos associam hoje aos multiplexes e afins.

Mas para mim pessoalmente é de facto verdade que os ciclos de atenção do espetador mirraram para lá do suportável. Não sei se respondo à pergunta mas o único sítio onde ainda hoje vejo quem se insurja (e violentamente!) contra sussurros e bichanaços durante as sessões é na Cinemateca... "violência" plenamente justificada.




http://lecoolisboa.blogspot.pt/2013/03/le-entrevista-joao-gomes-por-rafa.html#more