quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

CinAlfama - Novo Cineclube



Tenho um novo projecto que arrancou há um par de semanas que aproveito para divulgar! É o CinAlfama (http://cinalfama.blogspot.com)! É um Cineclube que criei na zona de Alfama. Vou tentar que ele se distinga pela sua originalidade temática e interactividade! Toda a gente pode sugerir ciclos e filmes! Vale tudo: “insanidade no cinema”; “esqueletos no armário”, tudo o que seja pessoal e original pode ser o fio condutor das nossas escolhas fílmicas.

O arranque foi no dia 25 de Setembro com o tema "Viagens". Uma sessão em que foi projectada, ao ar livre, a intemporal curta de Georges Méliès "Viagem à Lua" acompanhada em sincronia por um guitarrista profissional da Hungria (www.sandormester.com) e completada com o excelente filme de Martin Macdonagh "In Bruges"!

Na próxima 4ªfeira dia 14, nova sessão e com dose dupla! Desta vez o tema é "Heróis Caídos em Desgraça"! "Rocky Balboa" e o "The Wrestler" são os filmes escolhidos.

Vejam toda a info em http://cinalfama.blogspot.com

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Convidado de Honra nº 5 - Jorge Vaz Nande e "As Portas"



Jorge Vaz Nande é colaborador das Produções Fictícias, onde, entre outras funções, gere os conteúdos do blog da empresa. É argumentista da empresa de conteúdos "Bode Expiatório". Fala-nos de várias questões relacionadas com o cinema e guionismo e, em particular, do seu último e original projecto "As Portas".

Na tua colaboração com o Bode Expiatório: o trabalho que fazes tem sido feito sobretudo em equipa?
Sim, num processo de colaboração e discussão que muitas vezes se estende da equipa criativa até às de produção e artística.

Quando trabalhas em equipa, como se gerem diferentes sensibilidades? Quando várias ideias estão na mesa qual costuma ser o processo de decisão?É primordial que os participantes num brainstorm se dêem bem e tenham respeito mútuo pelas ideias de todos. A partir daí, a discussão das soluções criativas faz-se de comum acordo, tendo em conta a sua exequibilidade e eficácia.

Existe alguma hierarquia criativa ou todas as vozes são iguais?
Todas as ideias boas são postas em prática, venham elas de quem vierem.

O mercado de trabalho para guionistas como tem evoluído?
O surgimento no mercado de certos canais de cabo com programas sem argumento é um dos maiores incentivos ao reconhecimento da necessidade de argumentistas.

A técnica da escrita é algo que se interioriza e se torna segunda natureza, ou relembrá-la é ainda, para ti, uma necessidade?
O domínio da técnica, que vai do software informático próprio até ao conhecimento dos princípios da progressão dramática, é o que distingue um verdadeiro argumentista de um simples diletante, tal como em todas as profissões: eu posso conseguir resolver um problema no motor de um carro, mas se desconhecer o nome e funcionamento interno dos componentes, não souber usar ferramentas próprias e não for actualizando o meu conhecimento à medida que vão saindo novos modelos de automóvel, nunca serei um verdadeiro mecânico.

Dá-me um ou dois filmes da tua vida.
"Talk Radio"



O teu projecto As Portas: fala-nos um pouco dele.
"As Portas" foi um desafio de escrita e de produção. Qual a estrutura de uma série interactiva? Como se alia a progressão das personagens à possibilidade de o espectador construir a própria narrativa? Um projecto em que todos deram o máximo e, em tempo recorde, fizeram um excelente produto audiovisual.

domingo, 20 de Setembro de 2009

A Música dos Diálogos no Mundo de Quentin



David Lynch diz que cada papel terá 5 ou 6 actores que o podem fazer igualmente bem, mas que há sempre um ideal. Ou seja, que poderão existir 5 ou 6 excelentes potenciais performances mas que todas serão diferentes. Diz que, um pouco como na música, a mesma peça tocada com uma flauta ou com um trompete pode sempre oferecer algo de maravilhoso mas completamente distinto, duas direcções diferentes. Compete ao realizador escolher a sua via.
Lembrei-me desta opinião quando ouvi Quentin Tarantino a falar do seu excelente filme Inglorious Basterds. O processo de casting, dizia ele, foi um desafio de muitos meses pois procurava não só a necessária fluência multilingue nos seus actores mas também a necessária poesia nessa fluência: a tal música que Lynch falava e que só um escritor de diálogos prodígio como Tarantino consegue antecipar aquando da escrita.
O seu fetiche "dialoguista" enfatiza a tal musicalidade que se completa, porém, na vida própria que um determinado actor lhe empresta. A austeridade da língua alemã representaria um enorme desafio ao tal desejado "calor" rítmico das palavras. Solução: o já mítico Coronel Hans Landa representado pelo Christoph Waltz! Um tiro de casting miraculosamente certeiro: o tal homem que domina três idiomas e todos eles com uma graciosidade adequada à sua implacável mas cortês personagem.

É o próprio actor que fala do seu enorme e bem sucedido desafio:



A erudição dos Cahiers du Cinema classificou, sem desdém nem soberba intelectual, Tarantino de realizador inculto. Na medida em que as suas revisitações de géneros fílmicos são feitas com um enciclpédico conhecimento da história do cinema mas sem preocupações reflexivas.
Na minha opinião Inglorious Basterds parece-me representar a expressão máxima da sua cinefilia. Já vai além do tal mergulho estético num dado universo de estilo ou a recuperação subversiva (mas respeitosa, quase com vénia) de um género ou época do cinema - é a própria problematização do cinema e seu poder. A imagem é o actor principal do filme. Mergulhar em Riefenstahl e no culto da imagem no regime Nazi é do que mais ambicioso e problematizante fez.
Mas se no conteúdo vai mais longe, é na sua forma que Tarantino se torna um pouco prisioneiro de si mesmo. Como inovar depois da vertigem e assombro de Cães Danados e Pulp Fiction?! O que consegue é mais alguns espantosos picos de qualidade que ficam para a história do cinema dos quais a primeira cena do filme é a mais marcante! Este filme está bem acima da auto-referenciação desinspirada de Death Proof mas também não é a pedrada no charco que outros foram. Mas também...a fasquia é muito alta;)

sábado, 5 de Setembro de 2009

Música Narrativa - nº 5 - The Last Waltz de Old Boy




Reparo, desde que comecei esta rubrica, que as bandas sonoras da minha vida correspondem quase sempre aos filmes da minha vida. Só prova que um filme tem que nos envolver para que a sua atmosfera musical marque a nossa viagem visual.
Aqui vai mais um exemplo de um filme que fascina e cuja música amplia o seu impacto, marcando o seu tom emocional.
Esta Last Waltz do apaixonante filme Old Boy (Grande Prémio do Júri em Cannes em 2004) é um tema quente e marcante. De tal maneira que vi o filme há 5 anos e ainda o conseguia cantarolar com clareza.
O filme é uma história de vingança e tabus. A candura de uma valsa colide com a violência das emoções representadas, como se houvesse algo de poético na angústia. É um grande filme e uma grande banda sonora!
A música Last Waltz foi composta pelo sul-coreano Jo Yeong-Wook e deve o seu nome ao Rockumentary de Scorsese de 1978 (assim como todas as restantes músicas da OST devem seu título a filmes conhecidos, muitos deles noir).

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Lisbon Film Orchestra domingo no Parque Mayer

Vi em Dezembro de 2008, num São Jorge repleto, um espectáculo quase perfeito. Uma enorme e excelente orquestra tocava bandas sonoras míticas de vários clássicos do cinema com os mesmos a serem projectados em sincronia! Foi mágico! Senti-me um puto...contive-me várias vezes para não me levantar em apoteose com o Indiana Jones, Star Wars, ET...enfim...
Este domingo a dose repete-se! Recomendo a todos: a Lisbon Film Orchestra vai estar no Parque Mayer este domingo, dia 6 de Setembro às 21:00. Os bilhetes custam apenas 5€. Encontramo-nos por lá!?

Deixo-vos com um aperitivo;)

Blogosfera Cinéfila nº 3 - Cadernos do Daath




O escritor David Soares traz-nos um blog muito bem escrito e coerente. É um autor de registo fantástico e é esse o enfoque deste weblog. A sua actividade inclui a banda desenhada, contos, antologias do género, entre outras produções de romance e ensaios.
Da literatura ao cinema, passando pela crónica e artigo de opinião, é com imaginação e humor que nos põe a par de tudo o que é novidade nas suas áreas de interesse e especialização, tendo o cinema papel de relevo.
A título de sugestão: será ele a moderar o MasterClass com o realizador de Terror Stuart Gordon integrado no MotelX no Cinema São Jorge este sábado, 5 de Setembro, às 19:15.

http://cadernosdedaath.blogspot.com/

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Questões Suspensas nº 2 - The Wire - O Cânone e o Mercado - Parte III

Entre Bush e Obama! O que tem The Wire de tão Especial

Dizem ser a série preferida de Barack Obama, o que só diz bem da sua natureza. Se Bush tinha alguma preferência não deveria andar longe do “Walker, o Ranger do Texas” (para baixo). Este facto podendo parecer fait diver é, para mim, quase uma confirmação – se dúvidas existissem sobre o enorme upgrade de carácter e riqueza de olhar injectados na Casa Branca…do palhaço para quem tudo é preto ou branco ao homem que tem profundo conhecimento dos cinzentos e respectivas gradações.




O enfoque da série é estrutural. Tenta mostrar como as instituições constrangem comportamentos pessoais mas também como certas opções individuais podem alterar jogos de poder. Tudo muito orgânico e intrincado.
Mapeiam-se redes interpessoais com uma minúcia impressionante. Vemos um enorme e brutalmente realista sistema de vasos comunicantes e ficamos banzados com o arbítrio das circunstâncias que, na realidade, ditam as nossas vidas.

É uma série chata! Indigesta para quem nela não mergulha. Como poucas séries o conseguiram, rompe uma série enorme de formatações televisivas: as personagens são muitas, anti-glamour e anti-heroicas, tão idealistas quanto mesquinhas; apesar de crua a violência é ostensiva e pouco explorada; não tem um claro protagonista; as personagens são postas na ribalta e afastadas abruptamente (como Mcnulty na 4ª série) - a narrativa e personagens sempre ao serviço do gigantesco projecto de análise sócio-política que esta série representa,sempre ao serviço da estrutura.

É uma série tão cínica quão comovente e honesta. Uma personagem (não me lembro qual) fala do caldeirão USA como “the american experiment”. É uma frase ambivalente que sintetiza, de algum modo, o espírito de toda a série: fala da sedução da vertigem americana mas com desencanto, sem tréguas nem redenções ingénuas. Uma pequena/grande vitória é sempre seguida de novo e perturbante desafio. A lógica política é de paliativos e impotência. Uma ecologia urbana de frágeis equilíbrios e tensões étnicas e de classe.
Neste sentido há tanto de americano como de global em The Wire. A propensão cíclica e estrutural para a convulsão – algo de estrutural na cidade americana e global.