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Questões Suspensas nº 2 - The Wire - O Cânone e o Mercado - Parte III

Entre Bush e Obama! O que tem The Wire de tão Especial Dizem ser a série preferida de Barack Obama, o que só diz bem da sua natureza. Se Bush tinha alguma preferência não deveria andar longe do “Walker, o Ranger do Texas” (para baixo). Este facto podendo parecer fait diver é, para mim, quase uma confirmação – se dúvidas existissem sobre o enorme upgrade de carácter e riqueza de olhar injectados na Casa Branca…do palhaço para quem tudo é preto ou branco ao homem que tem profundo conhecimento dos cinzentos e respectivas gradações. O enfoque da série é estrutural. Tenta mostrar como as instituições constrangem comportamentos pessoais mas também como certas opções individuais podem alterar jogos de poder. Tudo muito orgânico e intrincado. Mapeiam-se redes interpessoais com uma minúcia impressionante. Vemos um enorme e brutalmente realista sistema de vasos comunicantes e ficamos banzados com o arbítrio das circunstâncias que, na realidade, ditam as nossas vidas. É uma série chata! Indigest...

Questões Suspensas nº 2 - The Wire - O Cânone e o Mercado - Parte II

Dar às Pessoas o que Elas Querem Dar às pessoas o que elas querem é um falso argumento. É o que se ouve em Portugal a torto e a direito para justificar a esterilidade da produção televisiva nacional. Ouvi, por exemplo, José Eduardo Moniz a descrever o TVI Jornal como um espaço de e para o povo, que veste os jeans, arregaça as mangas e vai à cata do autêntico e português que é o que as pessoas querem num telejornal (se não era isto era uma baboseira semelhante)... A bitola e a exigência é um processo dinâmico e dialéctico. O oferta (está estudado) induz a procura. Não é a fatalidade de subdesenvolvimento cultural e estreiteza do mercado que dita a imbecilidade de quase tudo o que se produz na televisão portuguesa. A Hbo vem prová-lo e é esse o seu legado. Demarcou-se, definiu a sua singularidade e é hoje uma enorme e global marca que, apesar de ter conteúdos muito desiguais no que à qualidade diz respeito, goza ainda, uma década pós-Sopranos, de uma conotação revolucionária. É esse perf...

Questões Suspensas nº 2 - The Wire: O Cânone e o Mercado - Parte I

São quatro da madrugada numa sexta-feira. Acabei de ver o último episódio da 3ª temporada da série The Wire (A Escuta). Foi uma absoluta vertigem! A primeira série foi brilhante. Mas só agora passado um ano resolvi comprar as 2ª e 3ª séries. E assim se escreveu uma das páginas mais marcantes do meu percurso enquanto espectador. Sendo o cinema e a televisão (da boa) uma dos minhas principais janelas para o mundo, sinto que o meu olhar se refinou com a experiência. Vou ter em muitas situações futuras algo do The Wire no meu arquivo pessoal, ao qual vou, de forma consciente ou não, recorrer. Os que paparam febrilmente e de enfiada as 5 séries poderão pensar "descobriu a pólvora o bacano!". Quem sou eu para discordar. Ver a série deu-me vontade de pesquisar sobre as condições do mercado televisivo americano que permitiram que uma série tão brilhante quanto indigesta tenha visto a luz do dia. Fazendo-o talvez possa tocar também tocar nas fragilidades do nosso meio televisivo. Prem...

Frost/Nixon - ficcionar para fins dramáticos

Aproveitei a habitual reposição dos melhores filmes de 2008 no King para ver Frost/Nixon. Estava curioso em saber qual tinha sido a estratégia narrativa para tornar dramatizável uma entrevista, por maior que fosse a sua relevância política e mediática. A dita entrevista ocupa 1/3 do filme (percepção pessoal pouco rigorosa, admito). No restante período dedica-se exclusivamente ao raising the stakes . O frívolo e diletante talk show host Frost vê no desafio a Nixon um irreversível passo maior do que a perna que lhe pode custar a carreira e o ex-presidente uma última oportunidade de regenerar historicamente a sua imagem de estadista. Tudo isto num fundo de enorme eco sócio-político que tal momento significaria. Não veria o sempre sensacionalista Ron Howard fazê-lo de forma diferente. Mesmo que o filme se baseie num argumento de Peter Morgan que adaptou para o ecrã a sua peça epónima. Mas quando se fica pelas emoções fáceis de "Mar de Chamas"(1991) ou o sentimentalismo comezinho ...

Paradise Omeros de Isaac Julien - que surpresa!

Passei esta semana pelo Guggenheim de Bilbao. Fiquei impressionado pela dimensão e escolhas artísticas do museu. Mas houve uma instalação de video de um senhor chamado Isaac Julien que me impressionou imenso! Não mais deixei de pensar no filme e assim que regressei googlei-o furiosamente! O filme de 20 minutos baseia-se num poema épico de Derek Walcot que teve, como o nome indica, inspiração no trabalho de Homero. O filme faz pois a associação da epopeia clássica às marcas emocionais de um percurso de emigração introduzindo uma intrincadíssma sucessão de alusões sóciais e étnicas num fundo de associação de imagens e memórias. Mergulhamos num jogo de mistérios e intriga emocional com associações espontâneas e imagética subconsciente. É uma abstração profunda e sedutora que nos suga e maravilha. Isaac Julien é conhecido por ter desde o início da carreira o desígnio de desconstruir barreiras entre as diversas formas artísticas, conjugando-as ao serviço da narrativa visual. A negritude e ...

Shotgun Stories e o território emocional

Jeff Nichols traz-nos um olhar independente, sem restricções de economia narrativa, sobre o vazio e prisão emocionais que uma infância estragada traz. Várias cenas impressivas apenas lá estão para dar tom: de realismo e inexpressividade.Os olhos vazios e a vivência desalmada das personagens deste filme são marcantes. Cada uma delas procura um refúgio dum vazio impiedoso; a carrinha; o campo de basket; o lago e a pesca... A história do filme é a de uma disputa familiar. Três filhos negligenciados afrontam no funeral do pai a sua memória de homem bêbedo que os deixou ao arbítrio de uma mãe odiosa. Os filhos de mesmo pai de uma relação posterior insurgem-se, gerando-se uma trágica sucessão de retaliações. As Histórias de Caçadeira são a de uma disputa que evoca o tema western da demarcação territorial. Mas de um território emocional. O da paternidade e da importância da mesma na construção identitária do indivíduo. A auto-noção é um código primário de vida que quando ameaçado e abanado na...

Convidado de Honra nº4 - Susana Romana e a Escrita de Humor

Susana Romana é autora associada das Produções Fictícias desde 2005. Entre os vários projectos que escreveu para televisão, teatro, imprensa, rádio, suportes multimédia e eventos, destacava o “Inimigo Público” (suplemento satírico do jornal Público), “À Procura do FIM” (espectáculo musical para crianças em cena no Tivoli), “Marcação Cerrada” (crónica humorística do jornal “A Bola”), “Portugalex” (rubrica de humor da Antena 1) e a série “Liberdade 21” (RTP). Esclarece-nos, com respostas muito interessantes e reveladoras, alguns aspectos e curiosidades sobre a escrita de humor: São necessários certos traços de personalidade para escrever humor? Mais do que outra coisa qualquer, eu diria que é necessário ser-se muito observador. Chegar mesmo ao ponto de ser chato e comichoso, de reparar nos detalhezinhos e tiques e manias todos. É isso que proporciona, por exemplo, ser capaz de ter uma abordagem fresca perante um tema da actualidade ou criar reconhecimento quando se está a fazer uma piad...