Esclarece-nos, com respostas muito interessantes e reveladoras, alguns aspectos e curiosidades sobre a escrita de humor:


São necessários certos traços de personalidade para escrever humor?
Mais do que outra coisa qualquer, eu diria que é necessário ser-se muito observador. Chegar mesmo ao ponto de ser chato e comichoso, de reparar nos detalhezinhos e tiques e manias todos. É isso que proporciona, por exemplo, ser capaz de ter uma abordagem fresca perante um tema da actualidade ou criar reconhecimento quando se está a fazer uma piada sobre o quotidiano (ao bom jeito Seinfeldiano).
Ao contrário do lugar comum que se possa pensar, muitas vezes não são os “palhaços da turma” ou o tipo lá da empresa que berra umas anedotas sobre loiras à hora de almoço que dão os melhores humoristas – são os tipos observadores que fazem a coisa pela calada.
Qual a % de inspiração e transpiração neste metier? Pode ser um ofício que se desenvolve com perseverança ou é indispensável talento?
Eu defendo que a criatividade é um músculo que se pode trabalhar e desenvolver, desde que se tenha o empenho e a persistência. Para mim, o talento é apenas o que vai distinguir um tipo razoável de um tipo brilhante (e digo “apenas” sabendo perfeitamente que é uma enorme diferença). A proporção de inspiração e de transpiração varia muito de acordo com os dias, infelizmente.
Parece existir um pós Herman-José no humor português que libertou muita energia criativa contida. Nesta enxorrada qual te parece ser a bitola qualitativa?
O que me parece mais interessante nesta enxorrada é a democratização do humor, seja do ponto de visto do público, seja do ponto de vista do humorista. Nunca existiram tantos meios e plataformas para mostrar trabalho e ideias (twitter, youtube, blogs, programas para descobrir novos talentos…), tal como existe uma sede nunca antes vista de conhecer coisas novas e não necessariamente ter de se limitar ao banal e croquete que passa nas televisões sabe-se lá a que horas.
O Herman tem falhado em preservar o seu peso e destaque. Porque razão? Que circunstâncias mudaram?
Bom, isso talvez tenhas de lhe perguntar a ele
Existe um "humor português"? Qual a sua matriz?O humor é sempre um espelho bastante fidedigno da sociedade que nos rodeia, e nesse sentido é claro que há um humor português, baseado nas nossas angústias e manias. Mas acho que não tem uma matriz assim tão imutável, vai-se adaptando aos dias que vivemos e às gerações.
Ris-te do que escreves?
Muito mas MUITO raramente. Às vezes acontece rir-me quando releio coisas que já não me lembrava de ter escrito – mas normalmente é uma gargalhada seguida de um “sou mesmo parva!”.
Quais são as tuas supremas referências de humor?
Há nomes que são completamente incontornáveis e que são autêntico Património da Humanidade: os Monty Python, o Woody Allen, o Ricky Gervais, o Seinfeld… Dentro dos clássicos da literatura, adoro a acutilância do Mark Twain, do Oscar Wilde e do nosso Eça. Cresci a ver cinema e séries dos anos 80, pelo que coisas como o Quem Sai Aos Seus, o Aeroplano ou a Murphy Brown, mesmo estando hoje bastante datados, foram de uma grande importância. Sou completamente agarrada aos Simpsons e ao Calvin & Hobbes desde os 9 ou 10 anos. Nas coisas mais recentes, acho a sitcom How I Met Your Mother genial, especialmente ao nível dos personagens e também adoro Flight Of The Conchords. E, por mais foleiro que isto possa soar, tenho a sorte de ter muitos amigos que têm um sentido de humor nato e desembaraçado e que me influenciam muito mais do que aquilo que algum deles possa calcular.

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