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Mensagens

Frost/Nixon - ficcionar para fins dramáticos

Aproveitei a habitual reposição dos melhores filmes de 2008 no King para ver Frost/Nixon. Estava curioso em saber qual tinha sido a estratégia narrativa para tornar dramatizável uma entrevista, por maior que fosse a sua relevância política e mediática. A dita entrevista ocupa 1/3 do filme (percepção pessoal pouco rigorosa, admito). No restante período dedica-se exclusivamente ao raising the stakes . O frívolo e diletante talk show host Frost vê no desafio a Nixon um irreversível passo maior do que a perna que lhe pode custar a carreira e o ex-presidente uma última oportunidade de regenerar historicamente a sua imagem de estadista. Tudo isto num fundo de enorme eco sócio-político que tal momento significaria. Não veria o sempre sensacionalista Ron Howard fazê-lo de forma diferente. Mesmo que o filme se baseie num argumento de Peter Morgan que adaptou para o ecrã a sua peça epónima. Mas quando se fica pelas emoções fáceis de "Mar de Chamas"(1991) ou o sentimentalismo comezinho ...

Paradise Omeros de Isaac Julien - que surpresa!

Passei esta semana pelo Guggenheim de Bilbao. Fiquei impressionado pela dimensão e escolhas artísticas do museu. Mas houve uma instalação de video de um senhor chamado Isaac Julien que me impressionou imenso! Não mais deixei de pensar no filme e assim que regressei googlei-o furiosamente! O filme de 20 minutos baseia-se num poema épico de Derek Walcot que teve, como o nome indica, inspiração no trabalho de Homero. O filme faz pois a associação da epopeia clássica às marcas emocionais de um percurso de emigração introduzindo uma intrincadíssma sucessão de alusões sóciais e étnicas num fundo de associação de imagens e memórias. Mergulhamos num jogo de mistérios e intriga emocional com associações espontâneas e imagética subconsciente. É uma abstração profunda e sedutora que nos suga e maravilha. Isaac Julien é conhecido por ter desde o início da carreira o desígnio de desconstruir barreiras entre as diversas formas artísticas, conjugando-as ao serviço da narrativa visual. A negritude e ...

Shotgun Stories e o território emocional

Jeff Nichols traz-nos um olhar independente, sem restricções de economia narrativa, sobre o vazio e prisão emocionais que uma infância estragada traz. Várias cenas impressivas apenas lá estão para dar tom: de realismo e inexpressividade.Os olhos vazios e a vivência desalmada das personagens deste filme são marcantes. Cada uma delas procura um refúgio dum vazio impiedoso; a carrinha; o campo de basket; o lago e a pesca... A história do filme é a de uma disputa familiar. Três filhos negligenciados afrontam no funeral do pai a sua memória de homem bêbedo que os deixou ao arbítrio de uma mãe odiosa. Os filhos de mesmo pai de uma relação posterior insurgem-se, gerando-se uma trágica sucessão de retaliações. As Histórias de Caçadeira são a de uma disputa que evoca o tema western da demarcação territorial. Mas de um território emocional. O da paternidade e da importância da mesma na construção identitária do indivíduo. A auto-noção é um código primário de vida que quando ameaçado e abanado na...

Convidado de Honra nº4 - Susana Romana e a Escrita de Humor

Susana Romana é autora associada das Produções Fictícias desde 2005. Entre os vários projectos que escreveu para televisão, teatro, imprensa, rádio, suportes multimédia e eventos, destacava o “Inimigo Público” (suplemento satírico do jornal Público), “À Procura do FIM” (espectáculo musical para crianças em cena no Tivoli), “Marcação Cerrada” (crónica humorística do jornal “A Bola”), “Portugalex” (rubrica de humor da Antena 1) e a série “Liberdade 21” (RTP). Esclarece-nos, com respostas muito interessantes e reveladoras, alguns aspectos e curiosidades sobre a escrita de humor: São necessários certos traços de personalidade para escrever humor? Mais do que outra coisa qualquer, eu diria que é necessário ser-se muito observador. Chegar mesmo ao ponto de ser chato e comichoso, de reparar nos detalhezinhos e tiques e manias todos. É isso que proporciona, por exemplo, ser capaz de ter uma abordagem fresca perante um tema da actualidade ou criar reconhecimento quando se está a fazer uma piad...

A Zona

A Zona é um filme de instinto mas é igualmente um rigoroso exercício de acuidade visual. É onírico mas sensorial e táctil. Os pormenores captados: mãos; olhos; rugas; barba, são mais do que fisionómicos: de tão macro tornam-se abstractos. A Zona pareceu-me evocar Cronenberg e a sua relação obsessiva com o corpo na sua dimensão plástica, perene e mutável. O seu realizador Sandro Aguilar, contudo, diz ter em David Lynch umas das suas principais referências. Só que se Lynch subverte a narrativa para lá do lógico (o Inland Empire já foi, para mim, para lá dos limites do suportável), neste filme a narrativa é secundária...ou pairamos sobre ela à procura de algo intangível. É de facto um convite arrojado este feito para a Zona. Poderá instigar intriga ou desprezo; análise ou sonolência. Não existe com este filme a possibilidade de um “não gostei nem desgostei” ou o conforto de uma morna experiência domingueira. É esse o seu mérito, a sua radicalidade e inovação. É um filme cinzento e frio. ...

Alguns dos Filmes da Minha Vida - nº2 - Lulu on the Bridge

Sou um fã de Paul Auster. Como escritor e como realizador. Falando deste filme Auster citou o famoso dramaturgo e encenador Peter Brook: "I try to combine the closeness of the everyday with the distance of myth. Because, without the closeness you can’t be moved, and without the distance you can’t be amazed.“ Nenhuma citação poderia descrever tão bem o que este filme tem de belo e profundo. Lulu on the Bridge fala, em jeito de fábula, dos travões emocionais que connosco transportamos e do desejo que deles temos em libertar-nos. Nessa busca um homem mitifica, projecta desejos - neste caso numa mulher. Percebemos com este filme que libertação e o auto-conhecimento estão na entrega (a outra pessoa e riscos que acarreta). Sair do eu atormentado é tarefa difícil. Há algo de ambiguamente confortável na resignação, uma camada de falsos equilíbrios que aparentemente amacia o nosso quotidiano. É uma mística pedra que Izzi encontra (elemento central do filme) que parece abrir um portal par...

João Salaviza fala sobre "Arena" - a badalada curta que venceu Cannes!

"Cinema português não deve reproduzir realidades que não as nossas. Filmar à americana é um fiasco." São afirmações que ganharam ecos de legitimidade com a surpreendente vitória de João Salaviza na competição de curtas em Cannes. O jovem realizador fala ao programa Fotograma sobre as suas opções e atitude em relação ao cinema, muito antes de sonhar possivel tal proeza em terras de França.