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Notas Soltas nº 2

Les Adieux à La Reine (2012) , Benoît Jacquot– Fiquei com a sensação de nunca ter mergulhado no filme e sua atmosfera. Poderia ser o meu preconceito em relação a dramas históricos a falar mas não é claramente só isso. A escolha da “Maria Antonieta”, por exemplo, foi claramente um tiro ao lado e a subjectividade da leitora da rainha é marcada sem qualquer tipo de subtileza pela câmera e com uma inflação insuportável de premonições sobre o seu trágico destino.   Monterey Pop Festival (1968) , D.A. Pennebaker– Nunca vi rocumentário com tão arrepiantes actuações. Otis Redding é em particular potente. Dois anos antes de auge hippie de Woodstock e três anos antes do seu estertor em “Gimme Shelter” era esta o percursor do casamento do cinema directo com contracultura dos anos 60. Ainda ingénuo e bonito por isso.   Shermans March (1986) , Ross MacElwee– Muitas vezes o documentário pessoal resvala para o narcisismo inconsequente. Neste filme esse risco era acresci...

Cenas da Minha Vida nº 5 - Final do "The Conversation", de Francis Ford Coppola

Os amigos mais próximos enfadam-se quando trago à baila este filme. São centenas as ocasiões que o cito.  Gene Hackman como nunca mais o vimos. Longe da sua persona de aço e invulnerabilidade. É espectacular a consistência dos sinais que, por exemplo, a sua expressão corporal tolhida nos transmite. É um homem bloqueado. A história de um vigilante que se torna o vigiado. A cena leva-nos ao auge da sua paranóia. Até o seu eterno refúgio, o saxofone, lhe nega qualquer chance de paz. São 7 minutos de decomposição: do espaço físico e do espaço mental em que habita. Tudo filmado com uma precisão milimétrica e embalado por uma poderosa hipnose musical. É genial o piscar de olho à câmara de vigilância que é o seu plano final - em pleno rescaldo do Watergate. Que guardemos do gordinho, hoje um vitivinicultor a tempo inteiro e realizador nas horas vagas, o que de melhor ele fez. E este é simplesmente um dos melhores filmes da história do cinema.

Alguns dos filmes da minha vida nº 6 - Adaptation de Spike Jonze

No filme “Adaptation” de Spike Jonze o protagonista guionista tenta adaptar para cinema uma obra altamente livre e descritiva (literária) sobre orquídeas. Acaba, contudo, por bloquear na sua labiríntica neurose. No auge da sua confusão, é o próprio Charlie Kaufman, o real guionista do filme, que se mete a si próprio no enredo. É na evocação da orquídea e da sua desarmante e primária beleza que está a verdadeira dimensão do que está verdadeiramente em jogo: de que Charlie no meio da sua desorientação está fascinado com algo natural e primário que transcende a sua existência torturada. Numa determinada cena Charlie Kaufman, a conselho do seu pragmático e descomplexado irmão gémeo, recorre finalmente ao guru formulaico do guionismo Robert Mckee tentando encontrar respostas concretas para a sua demanda. Para ele a vida, torturada como ele a sente, não cabe nas estruturas de um drama e que nela tudo, ao contrário do drama, perman...

Cenas da Minha Vida nº 4 - Cena final de "The Unforgiven", de Clint Eastwood

É um final de cortar à faca! Clint olhava para todo o seu historial de leviana representação de violência e desconstruia qualquer noção de moralidade com um dos mais marcantes anti-heróis da história do cinema. Não é qualquer setentão que consegue ter a frescura de se re-equacionar desta forma! Nesta cena é a força do mito que "desvia" as balas e tolhe a reacção dos pistoleiros. É o mundo místico do Far-West que é posto em jogo e que abriu caminho ao revisionismo do género que nos deu muitos outros filmes de qualidade desigual (destacava o grande "Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford"). Este filme lançou-me numa admiração quase idólatra do realizador que só viria a terminar em anos recentes quando o filão temático da auto-crítica se esgotou irreversivelmente. Uma das cenas e um dos filmes da minha vida.

Notas Soltas

Passarei a compilar nesta página pequenas mas (espero) significativas notas sobre os filmes que vou vendo. Janeiro de 2012 Martha Marcy May Marlene (Sean Durkin, 2011) Excelente a forma como os flashbacks se diluem e presentificam com raccords simples e bonitos. É super bem sucedida a intenção de criar um todo orgânico tecido no passado e no presente. Evita a tentação virtuosa (artificiosa) das convenções do indie. A frieza analítica combina-se na perfeição com um outro tom mais quente e melodramático. Fotografia coerente e rigorosa, sem exageros. Uma Separação (Asghar Farhadi, 2011) Os ciclos de atenção de um filme no cinema decrescem ano após ano. É a era dos teasers, da câmara nervosa e da pós-produção vibrante. Este ritmo publicitário que luta sem tréguas para captar a atenção do espectador choca-me. Mas enquanto existirem filmes como este, está tudo bem:). É a sua coerência, humanidade e integridade que nos conquista e fazem deste um grande filme! Não há truques que substituam ess...

As Barricadas do Cinema em Portugal

"Num Mundo Melhor", da dinamarquesa Susanne Bier No cinema portuguÊs criaram-se barricadas. O texto publicado no Y esta semana, sobre a política de cinema na Dinamarca, poderia ajudar a descompartimentar opiniões. http://ipsilon.publico.pt/cinema/texto.aspx?id=298997 Deixo a minha opinião, relativizando as tais duas barricadas: 1)Cinema sem financiamento público (chamem-lhe subsídios ou o que quiserem) seria uma catástrofe cultural. Não é apenas por conformismo que se subsidia o cinema. É por ser uma actividade de investimento intensivo e cuja escala do nosso mercado torna potencialmente deficitária. Apelar ao amor à arte e amadorismo diletante da malta do cinema não é solução! É uma actividade muito complexa e cujas qualidades são apuradas durante um longo percurso que tem que ser profissional para ser consequente. Ter apenas cinema dito comercial não é também suportável porque anularia seguramente a pluralidade criativa ...

O que tem o The Godfather de tão intemporal?!

A saga cinematográfica “O Padrinho” (falo apenas das Partes I e II) possui uma qualidade indizível. Tem propriedades que lhe conferem uma intemporalidade invulgar na história do cinema. É para mim, pessoalmente, um filme de fascínio que consigo reviver a cada visionamento caseiro. Perceber este apelo perdurante é algo que sempre tentei fazer, mas de forma intuitiva e desorganizada. Vou tentar pôr alguma ordem nesses misteriosos estímulos enumerando alguns deles : identificação/repulsa Somos tão fortemente atraídos para o mundo das personagens que mal reparamos que nós/eles passaram determinada fronteira de comportamento socialmente aceitável. Estamos sempre perante a ambivalência de ver acções que parecem justificadas pelo contexto social em que acontecem mas que, de alguma forma, sancionamos moralmente, com maior ou menor grau de consciencialização. Ambos os filmes permitem às plateias participarem em acções proibidas e tirar daí fruição mas sempre na instável e perturbante fronteira ...