
Neste filme a mistura de tom é particularmente saborosa. Há uma espécie de choque entre a avidez e a rudeza do ambiente e da míngua que parece ter chegado para ficar ao Andys Paradise (Abel Ferrara dá sempre um enquadramento musical urbano e perturbador aos seus filmes) e a deriva vaudeville burlesca em que se converte o filme no seu último acto.
Essa transição é excelente como excelentes são as bailarinas e todo o cast. William Dafoe não nos transmite gravidade mas a excentricidade natural da sua figura presta-se lindamente ao tal burlesco contexto.
Vai-se vislumbrando inocência nas personagens, apresentadas como duronas e abrutalhadas. Essa dualidade: das personagens; do cabaret; da luxúria vs. inspiração, é credível. As mudanças de tom são um mecanismo movediço, que induz perturbação, a ser empregue com parcimónia e tacto. Abel Ferrara fá-lo sempre bem. Conhece profundamente as convenções dos géneros e nelas se move com uma independência muito vincada e estilo próprio. É sempre ele que escreve e realiza os seus filmes definindo a sua singularidade: às vezes de forma brilhante (Rxmas)- é espectacular a transição do "cor-de-rosa" familiar para o obscuro underground de NY neste filme - outras apenas bem (O Funeral) outras nem isso (Maria Madalena) mas sempre com a coerente assinatura dessa perturbação e desconforto: algo de intangível que não nos deixa relaxar e reclinar na cadeira.
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