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Mensagens

João Salaviza fala sobre "Arena" - a badalada curta que venceu Cannes!

"Cinema português não deve reproduzir realidades que não as nossas. Filmar à americana é um fiasco." São afirmações que ganharam ecos de legitimidade com a surpreendente vitória de João Salaviza na competição de curtas em Cannes. O jovem realizador fala ao programa Fotograma sobre as suas opções e atitude em relação ao cinema, muito antes de sonhar possivel tal proeza em terras de França.

Democratização do Cinema

A generalização da Alta Definição e as possibilidades de divulgação via net parecem querer levar o cinema por caminhos ainda pouco previsíveis. Mas já os arautos da tragédia agitam com a morte da cinefilia. Alegam que qualquer iletrado com uma handycam aspira hoje ao estatuto de criador. Também Chaplin dizia que com a morte do mudo o cinema perdia a sua expressão mais nobre: a pantomínia. Bom...quanto a isto...é ver o "Luzes da Ribalta"! O fantástico vídeo que se segue, de Jason van Genderen, foi inteiramente gravado num telemóvel e ganhou o maior festival de curtas do mundo: o australiano Tropfest. (http://www.tropfest.com/home). 3 minutos e meio de puro deleite!

Histórias de Cabaret (Go Go Tales) - O Desconforto de Ferrara

Neste filme a mistura de tom é particularmente saborosa. Há uma espécie de choque entre a avidez e a rudeza do ambiente e da míngua que parece ter chegado para ficar ao Andys Paradise (Abel Ferrara dá sempre um enquadramento musical urbano e perturbador aos seus filmes) e a deriva vaudeville burlesca em que se converte o filme no seu último acto. Essa transição é excelente como excelentes são as bailarinas e todo o cast. William Dafoe não nos transmite gravidade mas a excentricidade natural da sua figura presta-se lindamente ao tal burlesco contexto. Vai-se vislumbrando inocência nas personagens, apresentadas como duronas e abrutalhadas. Essa dualidade: das personagens; do cabaret; da luxúria vs. inspiração, é credível. As mudanças de tom são um mecanismo movediço, que induz perturbação, a ser empregue com parcimónia e tacto. Abel Ferrara fá-lo sempre bem. Conhece profundamente as convenções dos géneros e nelas se move com uma independência muito vincada e estilo próprio. É sempre ele ...

Questões Suspensas - nº1 - Os Limites do Humor

Quero com esta rubrica lançar perguntas mais do que as responder. Relativizar mais do que fixar fronteiras teóricas. O que tem piada? Eis a primeira pergunta! O sentido do que é humor é e será sempre determinado pelas nossas próprias fronteiras morais para as quais concorrem uma grande nuvem de factores. Não será nunca uma questão resolúvel determinar os seus limites. A fronteira do bom e do mau gosto; do subtil e do gratuito. São conhecidos e estudados os mecanismos do riso: as suas determinantes não têm uma raiz exclusiva: psicológica; social ou cultural. Descrevendo a minha reacção ao seguinte bit de Ricky Gervais (um dos maiores cultos televisivos da minha vida)sobre a Lista de Schindler acabo por explicar um pouco da confusão de espontaneidades e espartilhos que nos fazem rir ou não rir: O meu primeiro instinto foi rir. Um reflexo, uma espécie de regressão a um certo prazer infantil e sádico. Esse riso foi depois cortado por uma sensação de desconforto e culpa. Comecei com um riso...

Alguns dos Filmes da Minha Vida - nº1 - Sideways

Os filmes que apresentar aqui não estão por ordem de preferência. Porque, na realidade, não a consigo determinar. Há muitos filmes que admiro e aos quais volto periodicamente. Todos eles têm camadas de encanto. Como se ao revisitá-los conseguisse encontrar novos detalhes: clandestinos e sorrateiros. Adoro esta comédia. Sideways! Tem uma propriedade que muito prezo nalguns filmes: nada de demasiado marcante acontece. Prova que nem sempre é necessário puxar a tónica do conflito e da crise para que os personagens se revelem e acrescentar densidade dramática. O tom do filme é suave do princípio ao fim sem que isso signifique menor compreensão das personagens e dos seus manifestos ou latentes conflitos interiores. Neste filme existe uma cena fantástica à qual gosto também de voltar! Um diálogo cheio de momentos e mudanças emocionais. Miles (Giamatti) é uma personagem trémula profundamente mergulhada no seu lado obscuro e Maya (Madsen)alguém delicada com cicatrizes profundas de uma anterior...

Música Narrativa - nº4 - Anton Karas e The Third Man

Queria deixar esta rubrica respirar um pouco...mas acabei de ver o filme The Third Man de Carol Reed! Bem sei que a quente tomam-se decisões precipitadas, mas é seguramente já um dos filmes da minha vida. Entre os múltiplos pormenores espantosos do filme (fotografia, argumento, em especial os diálogos...) tenho que destacar a banda sonora. Tal como o filme, este tema apresenta-se gingão mas nem por isso alegre. É esse o tom do filme. É engraçadamente noir , cheio de nuances e sensações contraditórias. A própria personagem de Orson Welles (o terceiro homem) atrai-nos com seu carisma e causa-nos repulsa com seu cinismo (como no fantástico Cuckoo clock speech, adição ao argumento original da sua própria autoria). Foi composto e tocado numa cítara por um vienense chamado Anton Karas descoberto pelo próprio realizador Carol Reed numa incursão noturna pela capital austríaca e foi gravado, por condição do músico, no seu quarto de hotel. A melodia é marcante, fica no ouvido. Até os Beatles, n...

Patti Smith - Dream of Life

A biografia de Patti é condensada e despachada nos primeiros minutos e assim se dá o mote do filme libertando-o para a abstracção. A poesia do filme é algo encenada. A própria Patti Smith promove activamente o registo onírico, não é apenas um sujeito passivo que se deixa captar na sua intimidade. A atmosfera de sonho, o Dream of Life, casa muito bem com a poesia da autora que pontua e contribui, declamada ou cantada, para o seu tom. Está bem patente o grau de identificação do realizador com a artista e pessoa. A intimidade da câmara vem daí, do conforto que entre os dois se criou. Steven Sebring capta-a na sua multiplicidade. Patti assume o turbilhão espiritual que a levou de um meio rural e limitado para o mítico Chelsea Hotel em Nova Iorque. Esse turbilhão é deixado à solta numa reminiscência e associações espontâneas com que revisita o seu passado pessoal e musical. Contudo, o seu transe musical nos tempos de hoje pareceu-me algo reciclado. Assim ao documentá-lo o filme perde (visão...