Sábado, 14 de Maio de 2011

Documentário Português enquanto PTA não chega!!!






De português fui ver nos últimos anos pouca coisa nas nossas salas.

Retrospectivando, vejo, sem surpresa, que os filmes que mais me tocaram foram documentários. Vi na mostra "Panorama" de 2010 o arrepiante potencial dramático do som combinado com a imagem estática no maravilhoso "48" ; o histórico testamento vital super sensível do filme "José e Pilar"; recentemente marcaram-me o politicamente incorrecto "Linha Vermelha" de Pedro Filipe Costa e "Quem Vai à Guerra" de Marta Pessoa, um daqueles documentos que ficará bem vivo no nosso imaginário colectivo e respectiva Torre do Tombo.

O registo documental tem à partida um evidente compromisso com a realidade. É a sua vocação histórica por mais híbrido e fluida a sua fronteira com a ficção, por mais pós-moderna a sua abordagem. Obviamente que esse compromisso é sempre parcial e subjectivo. Mas a sua ressonância colectiva é potencialmente mais fina.

Mas para que se ancore igualmente na nossa inter-subjectividade também a ficção deve, por mais fiel que seja a convenções universais, afirmar-se na nossa realidade. Mas o que vemos frequentemente é que essas pinceladas de portugalidade mais não são que meros artifícios de argumento raramente explorados e que visam sobretudo estimular primariamente sensações mais do que convocar sentimento ou reflexão. A nossa ficção, dita para o grande público, não é, por esse motivo, auto-reflexiva - condição essencial na minha definição pessoal de arte.

É esta noção de grande público que emperra e nos tolda e que mete o nosso cinema numa crise de identidade. Deixando de fora o também ele polémico e por vezes autista cinema de autor, é na tentativa de viabilizar comercialmente que se produz esta esquizofrenia criativa das americanadas travestidas de portuguesas. A este respeito tem sido absolutamente imperialista o conservadorismo quadrado (também ele mascarado de irreverência) que o financiamento televisivo impõe ao cinema português.

Lembro-me de coisas deprimentes como o Amigos de Alex à portuguesa em "Funeral à Chuva"; o noir pseudo-tuga "Call Girl"; também "A Bela e o Paparazo" é uma comédia romântica e de costumes que se arroga de recuperar o espírito das velha comédia portuguesa dos anos 30, etc. Poderia citar muitos outros...

Mas são biopics como "Amália" e "Salazar" e o melodrama "Fátima" o exemplo perfeito de como se tenta, na nossa cinematografia, empacotar com um laçarote icónicas figuras e aspectos complexos da nossa cultura num registo do mais plano simplismo e pronto a consumir. De português não têm absolutamente nada os filmes que citei! Não problematizam, não interrogam ou interpelam minimamente a nossa inteligência ou consciência cultural.

Valha-nos portanto a produção documental portuguesa para nos aproximar um pouco de nós próprios enquanto esperamos por um cinema comercial inspirado a la Paul Thomas Anderson!

1 comentários:

DiogoF. disse...

O mestre, o mestre !