Neste filme a mistura de tom é particularmente saborosa. Há uma espécie de choque entre a avidez e a rudeza do ambiente e da míngua que parece ter chegado para ficar ao Andys Paradise (Abel Ferrara dá sempre um enquadramento musical urbano e perturbador aos seus filmes) e a deriva vaudeville burlesca em que se converte o filme no seu último acto. Essa transição é excelente como excelentes são as bailarinas e todo o cast. William Dafoe não nos transmite gravidade mas a excentricidade natural da sua figura presta-se lindamente ao tal burlesco contexto. Vai-se vislumbrando inocência nas personagens, apresentadas como duronas e abrutalhadas. Essa dualidade: das personagens; do cabaret; da luxúria vs. inspiração, é credível. As mudanças de tom são um mecanismo movediço, que induz perturbação, a ser empregue com parcimónia e tacto. Abel Ferrara fá-lo sempre bem. Conhece profundamente as convenções dos géneros e nelas se move com uma independência muito vincada e estilo próprio. É sempre ele ...