Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Tudo Começa na Escola




Fui ao Estoril Film Festival ao encontro de Escolas de Cinema europeias. Estavam naquela manhã representadas Escuela de Cinematografía y del Audiovisual de Madrid (Espanha), a INSA (Bélgica) e a Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa.


Os filmes belgas e espanhois, heterogeneidades à parte, apresentavam, sem excessão, histórias e uma acção bem vincada, com momentos fortes e premissas dramáticas assumidas e "explicadas". O filme português era contemplativo. Um adolescente num suburbio lisboeta fundia-se na sua paisagem quotidiana de modorra e dormência. Limpa a piscina, percorre a Ponte Vasco da Gama, vai a uma discoteca, enterra um animal de estimação, bicicleta a baixo bicicleta a cima...


Vejo com preocupação que tudo começa na escola. Em França alguns autores falam da herança da Nouvelle Vague no persistente preconceito simplista Autoral vs. Comercial. Mas até o contexto francês já é de permanente mudança em que as responsabilidades criativas são repartidas entre produtor, argumentista e realizador numa lógica de conjugação de talentos ao serviço do filme na suas indissociáveis viabilidades artística e comercial.

Portugal parece que ficou lá atrás. O anti-plot de filmes escolares como este mostram o autismo que caracteriza o nosso cinema dito de autor. Tratava-se, neste caso, de um projecto de 3º ano que foi seleccionado, pelos professores para produção, entre outros. O mesmo aconteceu, de resto, em encontros de edições anteriores do Festival do Estoril.
É o quadro em que nos movemos e que faz com que o nosso cinema tenha umas das mais indiferentes relações com o público em toda a Europa.


ps: importa, claro, referir que para o estreitar da tal relação com o público nada contribuem a maior parte das tentativas do cinema dito comercial, que por cá costumamos ver.

Domingo, 7 de Novembro de 2010

Master Class de Kiarostami no Estoril Festival




Ficam aqui uma breve descrição das considerações que gerou o Master Class de Abbas Kiarostami na apresentação do seu filme "Cópia Conforme"

O realizador iraniano admitiu que não consegue ajuizar sobre continuidades na sua obra. Quanto ao filme em si sofre da miopia própria de quem vê o fruto de um trabalho recente: "ainda não sinto o sabor do meu próprio cozinhado, que ainda está fresco, para já olho para ele com um olhar meramente técnico".
Admite "Viagem a Itália" de Rosselini com um dos filmes que mais o influenciou no princípio da sua cinefilia mas nem por isso vê uma ligação clara a "Cópia Conforme".

O seu espírito de constante experimentalismo teve numa produção internacional com actores estrangeiros um aditivo importante e que sublinha a universalidade das questões humanas levantadas. Não existem, segundo ele, traços de culturalidade no seu filme.
Num cenário de proscrição permanente na sua terra natal percebe-se esta tónica culturalmente relativista (este filme, como os restantes, foram banidos no Irão). O mercado negro, disse, tem sido o seu melhor amigo na divulgação da sua visão no país de origem. Geriu o trilinguismo do seu filme (não domina nem francês, nem italiano e apenas arranha o inglês) com um ultra cuidadoso casting e com uma noção instintiva das reacções e expressões dos actores que têm, no seu método, total liberdade para viverem as personagens.

O realizador produz geralmente os seus próprios filmes e permite-se certas indulgências e improviso no quotidiano de rodagem. Este filme era uma produção internacional e profissionalizada o que se traduz nalguma rigidez, no que se refere apenas à pequena diferença entre o guião original e o resultado final.

Kiarostami diz que é a sua vasta experiência que lhe permite abordar questões de complexidade de forma simples - ambição concretizável por poucos. Este extraordinário filme é um sublime exemplo desta capacidade. Não tem inspiração literária, ancora-se na experiência concreta do genial guionista que é Abbas. A este respeito diz que ao cinema é pedido que testemunhe e não apenas que crie. Esse testemunho é factor de comunhão entre todos nós. O que distingue o artista é a preservação e síntese dos detalhes na memória para utilização criativa.

Foi uma delícia o filme e o Master Class que se seguiu. O grande realizador deixou-nos ainda com uma visão de profundo optimismo quanto ao futuro, democratizado e liberto das restrições práticas, com a generalização do digital. Uma nova era que nos traz já um novo olhar cineasta por todo o mundo.

Fiquei sensibilizado com a ambição e irreverência enorme do seu olhar mas também pela sua singular humildade. O filme, esse, é uma obra prima absoluta.